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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Causa da morte: Viagra!




                A vista do lado de fora do pequeno cubículo era estranha, contemplava-se uma porta velha e suja e uma calçada em péssimo estado de uso, mas a polícia teve de entrar.
                Pelo acontecido na rua estreita, mas não tão longe do centro da pequena cidade, muitas pessoas perderam a noção do tempo e ficaram de conversa, uns com os outros, querendo se inteirar de mais detalhes da causa da morte do senhor de 65 anos, casado e pai de cinco filhos, avô e por aí mais...
                No quarto, e depois de duas tentativas fracassadas, entre chupadas e amassos em vão recebidos no pênis, o senhor JB resolveu engolir Viagra. De vez em quando, apesar dos anos de vida conjugal bem equilibrada, tinha de dar uma saidinha com outras mulheres para sentir-se ainda com fogo nas carnes. E fora assim que viera parar num quarto apertado e com uma cama velha na companhia de uma prostituta da cidade.
                Essa é uma das várias coisas que um homem faz para ter sua capacidade viril nas horas de dormir com a esposa – prostitutas tinham para o senhor JB o poder de lhe fazer correr nas veias um desejo de sexo mesmo em pensamentos na hora da vida matrimonial. E a coisa era antiga: tinha um encontro secreto com a mesma rapariga há anos. Então, ia mantendo-se com razoável atenção à esposa.
                Na cama, o sorriso começou a desaparecer e, a mulher nua, surgiu com os dois seios flácidos, como se estivesse olhando-o de outra esfera da costumeira. O homem não compreendia a ansiedade que estava correndo em sua pele e o porquê de seu membro estar tão rígido – parecia uma vara de madeira forte.
                Ele até procurou lembrar-se de beijá-la, mas os dois corpos se enroscaram tão furiosamente, abraçaram-se tão despudoradamente, que o senhor JB sentiu uma pontada aguda na cabeça.
A surpresa da paralisação do homem, pênis penetrado na vagina da mulher, fê-la demonstrar de início um carinho e passou os dedos pelo rosto que agora estava afogueado. Mas antes mesmo de falar palavras de afeto, desconfiou do andamento natural das coisas. Arqueou o corpo de cima do dele e soltou exclamações de susto:
_Meu Deus! Virgem Santíssima!
Na hora seguinte, enquanto os policiais chamavam um médico para fazer o óbito, a mulher explicou pela milésima vez que o pênis estava duro e dentro dela quando o homem morreu. Como poderia baixar?
_O que fiz de errado? _ perguntou nervosa.
Um dos policiais baixou a cabeça e cobriu com um lençol de retalhos o corpo do senhor JB, para aliviar a tensão dentro do recinto.
_O homem morreu por efeito colateral do Viagra. _ falou outro militar _Mas penso em como dizer isso à esposa. Ele devia sofrer do coração ou, foi overdose

Estupro

Noite de início de novembro-22h- uma mulher dirige-se ao guichê da empresa Guanabara. Estatura média, pela clara, aparenta uns vinte e nove anos, cabelos médios, sorriso largo.
_Plataforma 10, poltrona 01. Horário de saída: 23h45min, Senhora. Tenha uma boa viagem!
 
Corri ao banheiro. Necessitava urgente de um banho.  A temperatura ambiente excedia os 40°C. Deus! Como está quente!
Sento, após o banho refrescante, em uma lanchonete para uma água de coco. Nada havia de interessante na estação rodoviária. Poucas pessoas, ocupadas, consigo mesmas, para inibir meus pensamentos. Não sei como tenho a capacidade de me perder em divagações sem nexo. De súbito, sou abordada por um homem. Sou por natureza simpática. Sorri-lhe. Ao que ele começou a gesticular. A princípio quis eu entender. Depois percebi tratar-se de uma cantada barata.  O fulano olhava-me com gestos obscenos. Mirei em volta. Só nós dois e a moça da lanchonete. O que fazia da cena um medo em mim era que a garçonete fingia não notar o homem me desejando com os olhos e com os lábios me jogando beijinhos com ares de tarado.
Passam-se minutos eternos em que o lanche não consegue descer goela abaixo. Apavorada com a situação decido ir ao banheiro, refúgio secreto, creio eu.
Entro no recinto, não percebo que sou seguida. O local estava vazio de uma alma feminina.  O barulho dos ônibus enchia-me o corpo de cenas das grandes cidades. Mulheres sendo violentadas e o som abafado pelo intenso tráfego rodoviário. Um barulho. Volto-me.
Meu coração apertou-se no instante em que nossos olhos se cruzaram. Procurei fingir não sentir pavor. Como um gato com medo de água fria, vejo-me lançada ao primeiro banheiro da entrada à esquerda. Meu rosto preso entre os braços do dito cujo da lanchonete e uma boca a sugar meus lábios com voraz desejo. Eu na minha calça apertada senti o corpo dele armado a uma penetração em mim. Como fugir? Um asco deixou-me sem forças. A voz não saía. Ai! Como escapo dessa, Jesus! Mãe! Minha Virgem Maria!
Uma grossa mão desabotoava minha calça e sentindo que seria a presa fácil daquele corpo, tive medo de mim. Medo de gritar e de ser morta ali ou ser violentada, sem dizer palavra. Um silêncio vindo dele corria-me pela pele como um sinal de que tudo seria com ele desejava. Era alto, corpo forte, umas feições de animal em busca da fêmea. Seus olhos, duas esferas de aço. Minha frasqueira ao chão, ao lado de minhas peças íntimas.
Em meus seios por cima da blusa fina um roçar de barba por fazer. Um cheiro de loção ardida. Sempre tive pânico a filmes de terror. Em cenas de sexo eu abominava as de dores. E meu corpo morria com aquele homem dentro de mim. Seus braços sufocavam-me em um aperto insano de desejos. Uma das mãos dele segurava-me a boca enquanto a outra, dona de meu corpo, jogava-me de encontro ao dele. Remexi as pernas numa tentativa de fuga. Fui lançada ainda mais de encontro à parede, ao que ele aproveitou para me fazer recostar nela e facilitar seu “trabalho”. Então o homem esqueceu o local em que se encontrava e começou a soltar urros incontroláveis. Assustei-me. Minha cabeça deu reviravoltas. Os ruídos dos veículos, buzinas, uma cidade que gritava por vida noturna. Por que eu não encontrava uma pessoa que me trouxesse a salvação daquele ato violento?
Por instantes ele afrouxou meu corpo. Olhou-me com olhos demoníacos e com as mãos tateou minha pele. Uma desceu com carinho até meus braços. O gesto deixou-me sem coragem de reagir. Em minhas pernas descia um líquido pegajoso, um cheiro de coisa ordinária, de um pecado, de uma vergonha. Senti estar no limite de minhas forças. A qualquer momento previa que iria cair ali, no chão, de um banheiro público.
Com as pernas tremendo não mais que meu coração eu o vi afastar-se... Olhos nos meus... Uma necessidade gritar e um som que não vinha...
_Ai! Ah... ah...Não! Não!... Deixe-me...
_Mamãe! Mamãe, acorde! Acorde, mamãe!
_Ai!...Me deixa-... Me deixa... Meu Deus do Céu!
_Mamãe, a senhora estava tendo um pesadelo!

domingo, 7 de novembro de 2010

Diário de uma senhora


O cair da noite por dentro da casa...
Às vezes tinha receio de virem chamá-la. A cama esquecida no centro do quarto... e um som de carros num interminável barulho na rua. Um calor que lhe impregna na pele... descendo em suor pelo pescoço... (Despe a roupa e entra no banheiro) E aqueles pensamentos invadindo o corpo...
Senta-se na cama, e abre o roupão, úmidos os cabelos, esperando que o calor os seque. E fica olhando o vazio da parede: branca como as flores do vaso sobre a mesinha. Levanta-se e pega um diário e deixa-se cair numa poltrona. Um sorriso nos olhos é uma flor que se abre, desabrochando.  As mãos de um lado e de outro do corpo ainda esbelto, por cima da tolha, segurando o pequeno objeto. Lábios acompanhando os olhos no mesmo sorriso. Abre o diário...
A mente começa a viajar: revela pelos movimentos das pernas um formigamento na pele, seguindo para os seios (uma das mãos sobe por cima da tolha e descansa os dedos nos lábios), num caminhar suave.
Tem sede. Vai até a cozinha com passos apressados e abre a geladeira. Decide-se por uma limonada. O líquido refresca a garganta. De onde viera tamanha sede? Não bebera ainda há pouco? Do anseio de ler o diário?
Com os dedos agitados, vê-se conferindo se a porta da casa está mesmo fechada. Um dia, esquecera de verificar e quase fora pega com o diário nas mãos. Retira a chave da porta e a deposita em cima de um armário na sala de jantar. Os pensamentos dizendo vozes, chamando-a para o quarto...
Não. Deve ficar vendo TV. Todos aqueles homens, com cenas de amor, com cheiros de sexo, que foram seus amantes... Mas se amou a todos eles, nas horas de insônia, em noites desconhecidas...
Seus pés sobre o espaço até o quarto são pássaros livres, arrastando-se cúmplices dos pensamentos... sabendo a direção...
Senta na cadeira em frente à mesinha de madeira antiga no quarto. Com as mãos tremendo de excitação começa a leitura por páginas salteadas...
“ ‘Mas você é muito linda! Deixe-me ver seu sorriso... vai, deixe-se ficar assim com a alça do vestido caída... uns ombros morenos, macios...’. Pegava-me no queijo e me olhava longamente. Ricardo tinha a expressão dos grandes amantes. Seus olhos ardiam, dilatavam, cresciam e suas mãos... Ah, as mãos me pegavam nos ombros e desciam, acariciavam-me e o calor de meu corpo não vinha da tarde, mas de uma vontade de ser dele...”
Volta-se para a porta, com as mãos no diário. Ergue os olhos, numa tentativa de mergulhar as ideias noutra coisa. Convoca dentro da mente um lugar com pássaros e um banco de praça. Inventa um passeio até um jardim... E fica, soltando exclamações de euforia pela calma do lugar. Vai para um mundo de ternura, ouve um rumor de beijos e de confidências... Um pouco do vento fresco do parque que imaginara entra por baixo da tolha: Fica excitada com esse frescor. De repente, volta ao diário.
“Fiquei num pé só. Cerrei os olhos e o beijei. A boca dele engolindo a minha língua, enquanto meus seios eram beliscados por dedos carinhosos. Fiquei em fogo e me permiti desabotoar a calça dele e acariciá-lo com minha mão. Carlos me mordiscou o pescoço, as orelhas e foi fazendo-me carícias pelo corpo e o deixei ir adiante. Com a boca, ele me tocou levemente a barriga, depois os quadris e, mais vagarosamente, com a língua aberta e relaxada, lambeu-me o clitóris... Ah, descobri que adoro sexo oral”.
A noite é longa, não fosse escrever seu diário, a mulher seria mais sozinha ainda. Ela mesma não sabe como foi que começou: descobriu-se falando e agora não acabava mais. Aos cinquenta nos a mulher sofre com menopausa e mudança no corpo. Mas ela tinha uma beleza diferente, natural, ainda que com rugas e estrias. Os cabelos curtos favoreciam-lhe o formato do rosto. A voz rouca e sensual basicamente era o que mais a ajudava a atrair amantes jovens e sabia ter certo charme no caminhar. Na verdade, achava-se em ótima fase, sentia-se mais mulher que aos vinte.
“Aconteceu que o César, o mais novo professor de Matemática da cidade, chamou-me a atenção logo no primeiro momento. E se desde que tenho ficado viúva eu só transo com homens de fora da cidade, ele tinha o perfil que me agradava. Bem, fui a uma festa na casa da Ana e, na volta, precisava de um motorista ou de uma carona e, que me aparece? Ele. Ah, mais o rapaz me levou foi a um motel. Bem, bem eu tinha bebido além da conta e comprovei que uma noite de sexo sem compromisso lembra muito uma noite de bebedeira. Ora, eu sabia que nada poderia haver entre mim e um desses jovens longe da casa dos quarenta (Tudo é possível, sem perder a identidade... A idade ideal para um amante). Foi mais um desejo de momento... E como ele adorou que eu lhe pegasse no saco escrotal! É, foi bom e ainda estou de pernas bambas.”
A voz quer sair e dizer que já criou os filhos. Tudo se resume a fantasias. Sua intimidade não pode ser exposta aos homens sem romantismo da cidade. Alguns não veem que uma mulher é algo especial. Recolhe os braços e se cerca como se estivesse numa gaiola e o pássaro preso fosse ela, com seus sonhos de ser muito amada.
Deita-se na cama e fica quieta debaixo dos lençóis. A noite esfriou e gatos de rua miam lamentosamente em cima de muros. Há quanto tempo ela também não anda sem carinhos, meu Deus? E os dias vão-se passando... Não fossem meu diário e minha imaginação!... Ahn, os homens que conheço!...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Num túmulo



Fatos podem mudar a vida de um homem. Transar com uma mulher há muito desejada é um acontecimento que dá tanto prazer e faz um homem mudar a própria vida.
Augusto entrou no cemitério e correu os olhos ao longo dos túmulos pela ala dos adultos. Eram umas vinte e duas horas do dia de Finados. Ainda algumas senhoras rezavam aos mortos.
_ Ave- Maria!, Augusto pronunciou com ar de solidariedade na voz.
Dia de Finados é um desses dias em que o coração fica falando baixinho o nome dos amigos que se foram. Augusto tivera um grande amigo. Rodrigo, trinta anos, galego de estatura média e andar atrevido. Conheceram-se na infância e foram juntos à escola e, bem depois, Augusto fora ao casamento de Rodrigo. Frequentavam-se a tal ponto que quando Rodrigo morrera num acidente, Augusto viajara para o Rio de Janeiro. Antes da viagem, encontrara a viúva umas ou duas vezes e ficara com uma imagem dela na cabeça.
Alessandra, que ficara viúva aos 27 anos, chorava como uma criança na despedida do caixão. Augusto, de pé ao lado da mãe do amigo, sentiu um aperto no coração ao vê-la tão perdida, mas não lhe disse nada. Dias após, partira como fuga dos próprios desejos por ela.
Agora, estava caminhando em busca do túmulo do amigo. O cemitério estava quase vazio e os poucos postes elétricos tinham luzes apagadas. Preparou o espírito para um abalo. Ao mesmo tempo, lembrou de dias da infância. Rodrigo sorrindo em conversas sobre meninas...
Então olha o jazigo do amigo. Debruçada aos pés da cova, Alessandra. Foi maior o abalo. Ah, meu Deus do céu! Hoje não! Ela ergueu uns olhos tão sofridos, um rosto tão pálido e caiu em seus braços. Que mulher cheirosa, meu pai! Dois anos e ela estava mais bela ainda.
_ Quando chegou?
Augusto não respondeu nada. A carne, um tanto necessitada, apenas deu-lhe avisos de que o pênis crescera, pois o cheiro dela ia crescendo nos sentidos masculinos. Entre eles um silêncio de palavras quebrado por olhos que se tocavam. Ele colocou uma mão nos lábios dela quando quis falar. Fê-la sentir o quanto era doce um afago no rosto; passou delicadamente os dedos por toda a face e ergueu-lhe o queixo e deu-lhe um beijo carinhoso.
_ Você? Exclamou surpreendida.
Ele podia sentir a respiração ofegante dela e ouvir o batimento acelerado do coração. Tudo isso lhe passou pelo órgão viril e fê-lo dar um movimento por baixo das calças. Alessandra deixou os lábios abertos; pedia-lhe um beijo e a ganhou a boca masculina molhada e gulosa. Augusto perdeu o resto do esforço que guardara tanto tempo para não tê-la nos braços. Durante ainda uns segundos lembrou-se de onde estava, mas logo esqueceu.
A resposta a seu desejo foi segurá-la tão apertado de encontro a si, quase como desespero, que lhe sentiu o sutiã por baixo da blusa fina. Sorriu-lhe nos olhos e nos lábios. Que se faz para acalmar a carne de um homem apaixonado? E desceu os dedos no pescoço macio de Alessandra. Encaixou a língua nas orelhas, depois mordiscou no lóbulo e passou a língua por onde os dedos estavam. Aproximou a boca do ouvido dela e pronunciou-lhe “Alessandra” tão docemente, como se fora o resultado da espera dos dois anos. Recuou o corpo, olhou-a longamente, voltou a abraçá-la e tocou-lhe a blusa. Os seios empinavam. Subiam e desciam ao ritmo da respiração ofegante dela. Uma expressão tão sensual brotava dela que lhe desabotoou a peça. Os seios agora nus eram dois frutos suculentos. Ela nada disse. Não restou tempo, pois beijos lhe trancaram a boca. E mãos lhe cobriram os seios acariciando-os.
 Augusto estava em confusão de pensamentos. Não perdia os olhos dela e quanto mais a tocava, mais a prendia em seu coração. E começou a crer que era também desejado. Mais e mais; assim a despiu da blusa e podia ouvir-lhe os gemidos nas horas dos afagos. Ela estava querendo ser amada. Tão livremente, como se ambos fossem amantes.
E um turbilhão de sons corre na pele quando os dedos fogem da razão e tocam a calcinha dela. Toca-lhe o clitóris e sente-lhe a satisfação sexual. Terminações nervosas passam da pele dela para a dele. É como se os corpos fossem um só em sensações. Abaixa-se. Vai beijando-lhe as pernas, por lugares exatos aonde as mãos vão conhecendo, descobrindo. E a saia é erguida completamente. Um aroma feminino vem da calcinha. Serve-se do cheiro. E começa a com os dedos a circundar os grandes lábios. De repente, ela senta no mármore. Ele tem um sobressalto, assusta-se. Mas ela tem o olhar nele, os lábios entreabertos. Então, ela afasta as pernas e a segura uma das mãos dele. Depois, leva-a até o clitóris e mostra como gosta de ser tocada. E ele, atira-se de joelhos no chão, e começa a excitá-la. Depois, deita-a e vai subindo em beijos, descobrindo o sabor dos mamilos até chegar à boca da mulher amada. Não coisa mais bela que mulher no cio! Flutua no prazer de estar com ela! E a possui tão loucamente como se fosse um homem conhecendo a eternidade.
Ah, mais o dia clareara! E Alessandra se fora para casa!... Dissera que ainda era uma viúva e a sogra a esperava.
E devia passar pela cabeça dela muitas coisas; devia parecer muito estranho... Os cabelos em desalinho denunciavam que fora amada. A boca cheia de lábios, os olhos carregados de brilhos...
Houve ainda um momento de reflexão, depois ele ganhou a rua. Os raios tímidos do sol tomavam as janelas das casas. E um silêncio! Um silêncio tal que se ouvia o rumor dos passos tunc-tunc pisando firme pelas calçadas. E os olhos de Augusto seguindo a rua, tão em paz, tão tranquilo do que fazer...


domingo, 31 de janeiro de 2010

Gigolô

Foto Google - fotolia
Considerei a glória de uma paixão sendo amada em noites de luar, sob o esplendor das estrelas, num beijo imortal. Devo ter visto livros de amor em demasia. Pois descobri que aquelas cores eram existentes apenas em minha imaginação. Não há pigmentos de amor num gigolô.
Como se ama um pavão e se descobre que ele não tem plumas? Como se viaja ao paraíso e sabe seduzida pela própria serpente? E quanto vale uma noite de amor, mesmo assim?
Era noite. Eu estava caminhando sem destino pela avenida principal de minha cidade. O trânsito já quase adormecido fez-me seguir um pouco mais que o habitual. E lá estava ele. Negro. 27 anos. Um deus grego na pele de homem. O olhar inquiridor me congelou na hora. Eu desejei ser a resposta a todos os questionamentos dele. Encarei-o. Minha pele eriçara. Uma mulher solitária sempre espera despertar paixões. E sonha.
Perguntou-me o nome. Arrisquei confiar. Meu ser o queria. Disse-lho. E segui.
Na volta, encontrei-o no mesmo lugar, sorriso aberto. Perguntou se podia caminhar a meu lado. Que era estudante de letras e escritor nas horas de solidão. Amei aquilo. Um rapaz me conquistando com a sutileza de grandes amantes. Eu contava 40 anos. Ainda estava no fogo de uma doída separação. E como me ardiam as entranhas quando eu lembrava das noites de amor insano.
Oh! Meu corpo queria uma noite de carinhos! Ele a meu lado, o perfume de lobo querendo comida, eu a presa implorando por ser mordida. Existiam apenas meus olhos recebendo a luz dos dele. E meu ser sendo contagiado por aquela voz rouca e sensual. O caminho até minha casa foi um pulo nas palavras dele. Eu as bebia com sofreguidão. Ele parou em frente ao portão. Balbuciou algo em agradecimento e foi rua acima.
Um grito meu o fez voltar. Creio ter topado nos degraus de entrada de minha própria casa. Eu só olhava para ele. Não há como se prever o que se vai fazer ou dizer quando o corpo fala por nós. Um arrepio me correu pela espinha dorsal e tenho certeza, caminhou até meu sexo quando o senti tocando em mim. E meu corpo latejava. O rapaz o notou. E sorriu com o negro dos olhos para minha alma que se encantou. Ele me beijou ali mesmo. Na rua. Debaixo da noite enluarada.
Subimos. Não havia como fingir que não o queria. Minha pele era minha denúncia da solidão. Vi-me entre mãos quentes e um aroma másculo me penetrou no âmago selvagemente. Eu era toda desejo e tive a impressão de que ele estava como eu. Buscando uma noite de prazer.
Quando seus dedos tocaram minha intimidade por cima da calcinha eu já me sabia dele. Com os dedos minha carne foi explorada, molhando-me. Eu queria ser amada por ele. Ser seduzida. Chamada de gostosa. Meu corpo gemia em seus braços. Senti minhas orelhas mordiscadas. Meu pescoço explorado com os dentes. E fui seguindo-o até meu quarto. Arrastada num turbilhão de prazer. Gemi enlouquecida. Gritei o nome dele. Carlos, disse chamar-se. Posição, que eu apenas cogitara existirem, as fez. Éramos dois loucos buscando o deleite. E amamos juntos.
Depois, com uma calma que me feriu o coração, com a voz de uma lança pontiaguda, pediu-me o pagamento enquanto bebia de meu conhaque. Esse é o luxo do grande artista, cobre uma mulher de flores e deixa uma coroa de espinhos das pétalas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Hidratando a pele






Sai do banho. Nua. Em gotas d'água na pele. Banhara com sabonete íntimo e está relaxada, perfumada; sente-se bem. Uma sensação de frescor de cútis de menina a envolve. O olhar busca a cama no centro do quarto. Caminha descalça até lá. Delicadamente. Sem pressa. Nas mãos, um óleo hidratante.

Ergue a perna direita, posiciona a ponta do pé na cama e com o líquido perfumado na palma da mão esquerda inicia o processo de carinho na pele. Olha o pé. Delicado. Suave, como a ternura de um amante, a sola recebe um carinho especial. Massageia. Como se quisesse tirar as dores da alma e do corpo após um dia de trabalho. Os dedos quase se veem beijados pelas mãos dela. Um a um os pés sentem-se amados. Visualiza a panturrilha.

A pele branca, sedosa, macia, sendo tocada; adquirindo a agradável sensação de bem-estar. Sabe-se bonita. Olha-se ao espelho na parede central a sua frente. O corpo é sensível ao toque. Uma leveza n'alma a envolve. Desliza a mão sobre a perna até a altura dos joelhos. Circunda-o. Vê o reflexo de uma mulher jovem: sensual, delicada, meiga, o corpo nu. Desejando ser acariciada.

A perna estava já quente, entregue ao toque. Os pelos eriçam ao perfume, aos agrados das mãos. Usa as duas. O óleo na cama. Aguardando o uso. As mãos sobem. Encontram a região da virilha. Arrepia-se. Faz círculos, semicírculos. Quer o toque de um homem. Ele. O amado. Olha-se. Uma fêmea em vida; pedindo uma carícia de amor.

Põe o dedo no umbigo. É quase um estupro. Não costuma colocar o dedo no orifício. Algo anormal a invade. Talvez seja o espelho. É um ser se descobrindo, se conhecendo. Faz um deslizamento no sentido horário em volta dele. No restante da região, os movimentos circulares são de 360°. Contrai-se. Uma selvagem mulher mora nela. Uma insaciável fêmea por afabilidades.

Altera a perna. Está excitada. Todo o caminho é feito com a mesma ternura. Olhando-se. Deixando o aroma entrar nos poros. Correr pela carne. Criar uma espécie de prazer no corpo, como se fora ele a passar o óleo em sua pele, deixando fogo no percurso, incendiando-a; fazendo-a única no mundo na hora do amor.

Os seios se movimentando; brigando por seus direitos. Rodeia as mamas. Eriçam-se os bicos. O formato dos mamões admirados ao espelho. Vira-se de frente. Há no olhar dela uma provocação. Caminha pelo quarto. Está em tesão na pele. Hidratada é uma gata selvagem. Quer miar para a lua que se aproxima de sua janela. Falar dos sentidos. Do prazer de ser uma mulher. De sentir-se bela. Quer um beijo do vento. Um luar na carne. Como um banho de luz. Suspira.

Pensa nele. Virá logo mais. Hoje é sábado. Dia dos amantes que trabalham a semana. Enrola-se na toalha e deixa o óleo em cima da cama. Ele é profissional em hidratar o restante do corpo. Mas as mãos dele são o melhor toque.

Espera com um sorriso faceiro nos lábios.



Um rebolado mulato







A mulher desce do ônibus com o corpo trigueiro e o olhar na rua; os homens param. Um deles murmura algo, baixinho, aos amigos. Ela presume:

- Quem é a gata das pernas grossas?

E a mulher caminha. O gingado de mulata no vaivém do corpo. Na tarde que escapava ainda da noite.

E um turbilhão de pensamentos na cabeça dela. Dentro da mente um alarido de vozes. Mas seus lábios eram todo silêncio. E ela passa entre eles - rebolando mulato. Ela se sabe bonita, de perfume embriagante. Que pensa um homem quando uma fêmea lhe deixa uma fragrância de cio no ar?... Os gestos masculinos a lhe insinuar imagens na mente. Não há mal nenhum em cogitar um desejo no corpo. O rosto que se encarregue de esconder as vontades da carne.

O vento na saia dela. A brincar de menino provocador. Os olhos dos homens se rindo por inteiro. O corpo deles apitando num chamado já visível. As mãos que são colocadas nos bolsos. Um gracejo para aumentar a provocação dos olhos pedintes... E ela sem disfarçar o que vê... Entre as pernas a saia... e o corpo gargalhando de sentidos pelos ouvidos. O aroma de aceite no ar. Quer deliciar a pele com os gracejos deles. A respiração acelera. "Gostosa...", as pernas arrepiam-se ao ouvir.

E na rua a calçada abre-se para o desfile da mulata. A tinir o salto. Morena, na roupa leve, ao vento de fim de tarde... transparecendo a calcinha de renda preta... arrastando suspiros nas espingardas já em riste dos homens... querendo soltar a bala dentro dela...

O assovio no vento... "Fiuiiii... fiuiiii... fiuiiii...". Aumenta o rebolado mulato. Vibra o clitóris na calcinha. Umedece-se. As coxas esfregam-se em carícia íntima. Um som musical caminha na pele... Sente-se um perfume de jasmim... uma rosa beijada... um laço de fitas desatado... uma maçã mordida...

Mas a rua insinua uma esquina!... Os homens viajam o olhar... que parece deixar um nome... uma pergunta...

E na cadência do samba a saia roda ao virar no vértice da rua em 90°. Ficam os grilos, recolhendo suspiros, do cortejo dos homens em gracejos nas calçadas... a cada par de pernas que cruzam a noite.